PortugueseEnglishSpanish
Notícias

Reflexões Sobre A Existência

16.09.2016 | Gerais

DA CRIAÇÃO AOS DIAS DE HOJE
Antonio Carlos Gomes da Silva

Este tema exige que se comece pelo princípio. Portanto, necessário se faz discutir alguns conceitos preliminares, dos quais o primeiro, e principal, remonta à clássica discussão: o que veio primeiro, o ovo ou a galinha? 

Segundo o Gênesis, a reposta a essa dúvida atroz é óbvia. O homem, nesta elocução representando o gênero humano, é uma criatura de Deus, que, no 7º dia da criação de todo o Universo, do barro — portanto da terra — criou Adão, do qual retirou, em um momento de sono, uma costela para criar sua inseparável companheira, Eva. 

De outra parte, os ateus e os agnósticos, quer, estes últimos, por entenderem ser impossível ao homem conhecer a natureza última das coisas, quer, aqueles, por não acreditarem em Deus, não devem concordar com o Gênesis. Portanto, seria necessário formular outras hipóteses. 

O homem poderia ter sido gerado pela Natureza, provindo da terra, do planeta Terra, para onde retornará, fato que até reforçaria essa hipótese. Nesse caso, qual diferença haveria entre Deus e a Natureza? Ou proviria de algum outro elemento do planeta Terra ou de outro planeta. Ou a absurda possibilidade de ter surgido antes da Terra, podendo até tê-la criado. Absurda porque a lógica disso seria admitir que o homem é o todo-poderoso do Universo, um deus, e como consequência teria criado o Universo, logo jamais dele dependendo, fato absolutamente irreal. 

Ainda dentro dessas considerações introdutórias, parece-me não haver qualquer contradição entre a teoria divina e a teoria de Darwin, a teoria da evolução das espécies, pois, novamente segundo o Gênesis, os 7 dias que Deus utilizou para chegar ao homem são um dado apenas simbólico. Seria o tempo necessário para a criação de tudo que está à disposição do homem, incluindo a evolução de todos os seres que o antecederam. 

Pelos dados conhecidos, é ponto pacífico que o planeta Terra, local onde o homem hoje se encontra, o antecedeu. 

Conclui-se, pois, que alguma entidade criou o homem, seja ela a Natureza ou Deus. Consequentemente, quer a Natureza, quer Deus, está dentro do homem, assim como o código genético dos pais está nos filhos. 

Essa ideia permite um questionamento: como seria possível ao homem, que tem Deus ou a Natureza dentro de si, praticar atos que contradigam a sua excelsa origem, atentando contra os princípios de seu criador? A resposta me parece também óbvia: ao homem foi concedido o livre-arbítrio, conceito fundamental para a sequência de eventos que derivam das atitudes do homem. Conceito fundamental e basilar para o respeito que todos os homens merecem ter em suas atitudes e opiniões. 

Como contrapartida, cada homem deve respeitar as leis dos ambientes onde vive, por exemplo, as leis das cidades, se nelas vive, as leis da selva, se ali é seu habitat, e assim por diante, jamais se lhe tolhendo o direito de optar por viver onde bem lhe aprouver. Essa prerrogativa, que decorre do livre-arbítrio, condena os ditadores sanguinários que o impedem do exercício pleno de sua liberdade de expressão e de locomoção. 

Uma vez na Terra, o homem tem a imperiosa necessidade de se manter. Para isso, Deus, ou a Natureza, como querem uns ou outros, oferece enorme gama de recursos para sua subsistência, dos quais usa e abusa, gerando graves distorções no meio onde ele vive, o meio ambiente, distorções estas que acabarão por penalizá-lo. 

Assim, o fundamental para que o homem continue vivendo é a necessidade de se nutrir, retirando do meio ambiente o necessário para se manter. Do ar, retirando o indispensável combustível para gerar a energia, energia esta essencial para se recompor e se desenvolver à custa da extração dos bens naturais encontrados no planeta Terra. 

Ao que se sabe do Gênesis, houve somente dois momentos na vida do homem neste planeta em que não necessitou empenhar-se para subsistir. Um primeiro, correspondente à sua permanência no Paraíso. Um segundo, por ocasião da retirada do povo judeu do Egito, conduzido por Moisés, para a Terra Prometida, quando do céu proveio o maná, uma exceção absoluta. O primeiro interrompido pela desobediência a uma imposição divina, a de não comer a maçã, o fruto da árvore proibida, maliciosamente oferecida por uma serpente a Eva, que a comeu e a deu a Adão. Deus, então, interveio e sentenciou: a partir deste momento, vocês vão comer o pão de cada dia com o suor do seu rosto. Evidentemente extensivo a todos nós, pois, até os dias de hoje, não houve a possibilidade da revogação dessa sentença. 

Assim, submetendo-nos às condições anteriormente citadas, quer pela palavra de Deus, quer pela lógica da Natureza, que rege a vida do homem sobre a terra, ele precisa empenhar-se, esforçar-se ou mais simplesmente trabalhar para obter os recursos para sua subsistência. No mínimo fazendo algum esforço ao se aproveitar daquilo que encontra ao alcance da sua mão, por exemplo, ao apanhar um fruto nativo. Mas, a continuar nesta desídia, praticando atos que dilapidam o meio ambiente, sem se preocupar em repor os bens naturais dos quais se utilizou, terminará sem ter o que comer. 

Logo, nesta Terra, não há possibilidade de subsistência sem esforço, sem empenho, sem se dedicar aos afazeres, em suma, sem trabalhar. 

De outra parte, ao se manter em convivência social, uma vez que é um ser gregário, cada indivíduo deve desempenhar uma função, desde as mais simples, as mais humildes, até a do chefe da nação, todas de igual importância para a comunidade. Mas os homens não são iguais, não têm a mesma compreensão do sentido da vida cooperativa, das coisas da vida em comum, e, como consequência, nem todos entendem a importância de cumprir a sua função, indispensável numa sociedade interdependente. Disso resulta a desarmonia social, desestabilizando a tão almejada sociedade igualitária, um verdadeiro paraíso, desejo de alguns visionários que creem na possibilidade do perfeito funcionamento dessas sociedades. Impossível, aqui na Terra, exatamente porque os homens são diferentes entre si. 

Por sinal, na recente viagem que fiz a Israel, em 2015, tive a oportunidade de perguntar a um israelense, professor de História, qual era a situação atual dos kibutzim — na minha concepção, a mais perfeita colônia coletiva do planeta. Respondeu- -me que estão em processo de extinção em decorrência da diversidade de situações vividas por seus habitantes, como consequência das variáveis a que o homem está sujeito. Citou, como exemplo, uma doença prolongada que afaste o padeiro da sua obrigação de prover a comunidade do pão de cada dia. Fatos semelhantes a este geram uma fratura no contrato social. 

Diante disso, concluo pela impossibilidade da existência do Paraíso aqui na Terra. Talvez porque haja, pelo menos para aqueles que creem em uma vida espiritual, a básica diferença de nutrientes nesses dois ambientes. Na Terra, a matéria, portanto tangível e finita. No Paraíso, o amor, absolutamente etéreo e infinito. 

Como corolário dessas considerações, creio que são pueris as intenções de remunerar o homem independentemente do seu trabalho, aspiração de alguns sonhadores, indivíduos desligados da realidade da vida do homem no planeta Terra. 

Para que isso fosse possível, seria necessário transformar a Terra no provedor automático das necessidades de cada indivíduo, daí decorrendo a dispensa do labor diário, labor este que o clássico e sábio provérbio popular incentiva: o trabalho enobrece e dignifica o homem. 

Este, o trabalho, o labor diário, é a única saída para a subsistência do homem, não somente nobre e digna, mas principalmente garantidora do seu sustento.

Antonio Carlos Gomes da Silva 

Secretário-Geral da Academia de Medicina de São Paulo