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Policlínica de São Paulo, 1896. A história de uma pioneira na medicina de especialidades

31.08.2026 | Gerais
Foto: Andre Lessa

Uma rua tranquila entre a Praça da Sé e o Pátio do Colégio, no Centro Histórico, foi a última sede da Policlínica de São Paulo, que atendeu gratuitamente a população dos primeiros tempos da República até o início dos anos 1940. Foi uma experiência pioneira que na cidade só perdia, em longevidade, para a Santa Casa. Lavrada em 7 de março de 1896, a primeira ata definia a Policlínica como associação humanitária com a finalidade de “proporcionar à classe pobre, sem distinção de idade, sexo ou nacionalidade, o serviço de consultas médico-cirúrgicas”.

Um modelo muito distante dos serviços de saúde de hoje. Atendia das 11h às 15h, todos os dias, inicialmente com 12 médicos – que não recebiam remuneração pelo serviço prestado. Um deles era Arnaldo Vieira de Carvalho, futuro diretor da Faculdade de Medicina e Cirurgia, atual Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O funcionamento era mantido por meio de doações e recursos públicos. Entre 1926 a 1940, foram atendidos 1,4 milhão de “pobres da capital”.

A Policlínica surgiu por iniciativa da primeira entidade médica de São Paulo, a Sociedade de Medicina e Cirurgia, desde 1954 chamada de Academia de Medicina. Na noite de 7 de março de 1896, um grupo de médicos anunciou a fundação do “novel sodalício”, termo para designar uma nova entidade. O atual presidente da Academia de Medicina, Helio Begliomini, formado em 1978 pela Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP), disse que seis meses depois da reunião de março, a Policlínica foi estruturada.

Segundo ele, os profissionais pioneiros tinham uma preocupação muito grande com a parte humanitária. “A Policlínica nasceu desse espírito humanitário”, afirmou o médico. Begliomini tem um viés pesquisador. “Fui muito influenciado, na faculdade, a valorizar o passado.” Com 130 cadeiras para membros titulares, a Academia de Medicina promove tertúlias (reuniões de confraternização e debates) mensais. A de agosto, por exemplo, teve palestra do infectologista David Uip, ex-secretário estadual de Saúde e atual diretor da Rede D’Or.

Inicialmente, o local tinha clínicas de moléstias internas em geral, de mulheres, de crianças, de olhos, ouvidos e garganta e da pele, além da área voltada a cirurgias. “Era um embrião das especialidades”, afirmou Begliomini. Até então, “naquele período, médico fazia tudo”. Segundo ele, à época, cada clínica era confiada a um médico único responsável por todo o serviço profissional.

O primeiro diretor foi Mathias Valladão, então com 36 anos. Era natural de Campanha da Princesa – hoje apenas Campanha, no Sul de Minas Gerais –, mesma cidade natal do cientista Vital Brazil. Foi um dos fundadores do Instituto Pasteur. Em 1919, a Policlínica tornou-se fundação, com serviços clínicos divididos em dez áreas: geral, homens, mulheres, infantil (médica e cirúrgica), ginecológica-obstétrica, vias urinárias, oftalmológica, dermatológica e otorrinolaringológica.

As atas da entidade davam conta de mudanças na direção ou no corpo clínico e, principalmente, da situação financeira. Em 6 de setembro de 1922, por exemplo, era registrado que, além da subvenção estadual e municipal, a Policlínica era beneficiada pela “generosidade de preciosos donativos”, como os da Sociedade Rural Brasileira e dos condes Francisco Matarazzo (sócio benemérito) e Alessandro (Alexandre) Siciliano.

Ao completar 30 anos, em 1926, a Policlínica divulgou balanço das atividades. Os serviços prestados de setembro de 1925 a agosto do ano seguinte incluíam 7.705 operações, 10.590 injeções, 28.134 curativos e 46.949 consultas. Desde o início do funcionamento (1896), até aquela data, foram registradas 12.400 operações, 78.851 injeções, 62.500 curativos e 735.566 consultas.

O relatório registra ainda que a Policlínica “vem lutando com a dificuldade de recursos econômicos”, a despeito de os médicos “não receberem a mais leve remuneração pecuniária”. Inclusive para o pagamento da dívida e dos juros contraídos para construção da sede, que seria a última, na atual rua Roberto Simonsen, diante do Solar da Marquesa de Santos.

Mas a situação iria piorar. Em 1929, com a crise internacional deflagrada pela quebra da Bolsa de Nova York, os efeitos foram severos na economia brasileira. Em ata publicada em dezembro de 1930, o tema predominou. “Devido à crise econômica que nos assoberbou, o número de doentes cresceu muito e assim as despesas.” Para tentar amenizar a situação, foi aprovada uma lei municipal que criava a Taxa de Caridade, em benefício da Policlínica e da Santa Casa.

Não pareceu o bastante. Quase no final de 1932, a instituição acusava atraso superior a três meses “dos exíguos salários do nosso pessoal administrativo, sempre disciplinado e trabalhador”. Já no ano social 1939-1940, na fase final, novo balanço registrava 46,6 mil clientes antigos, 20 mil clientes novos e 1.453 operações. Dos atendidos, 49,9 mil (75%) eram “nacionais” e 16,7 mil (25%), estrangeiros. Naquele momento, São Paulo já tinha 1,3 milhão de habitantes. O relatório traz estatísticas do período 1926-1940: um total de 1.441.871 atendimentos.

Não há registro preciso, mas a Policlínica funcionou até o início dos anos 1940, quando as subvenções minguaram de vez. O último relatório social e financeiro é de 1941. O atual presidente da Academia de Medicina de São Paulo destaca o pioneirismo do local: “Tinha recursos audiovisuais, auditório, sala de espera”. Para ele, o principal fator do fim das atividades, mais que o financeiro, foi o surgimento de outros hospitais, como o Hospital São Paulo (1940) e o Hospital das Clínicas (1944).

O palacete passou para a Caixa Econômica Federal, um dos credores, que o vendeu em 2020 para um empresário – assim, permaneceu praticamente sem uso durante oito décadas. Até que em 2025, o empresário paulistano Allan Ruiz – um escavador de imóveis antigos no Centro – adquiriu o edifício de quatro pavimentos.

Ao consultar especialistas e pesquisar no Arquivo Histórico Municipal, a surpresa: Ruiz, sem saber, havia comprado um imóvel assinado por Francisco de Paula Ramos de Azevedo, um dos arquitetos do Theatro Municipal de São Paulo. Ele mora e quase não sai da região central. E planeja restaurar parcialmente o prédio para criar um espaço cultural. Dessa forma, o palacete voltará a ter uso social.

Questões essenciais

O que foi a Policlínica de São Paulo?

Foi uma experiência médica pioneira na cidade, criada pela Sociedade de Medicina e Cirurgia, atual Academia de Medicina de São Paulo, para atender os “pobres” da capital

Como era mantida?

Por meio de doações e subvenções públicas. A primeira equipe era formada por 12 médicos, não remunerados, com atendimento em oito áreas clínicas

Onde funcionava?

Na região conhecida como Centro Histórico. Última sede ficou oito décadas fechada, até ser comprada em 2025. Atual dono descobriu por acaso que o projeto foi feito pelo arquiteto Ramos de Azevedo

Texto: Vitor Nuzzi – Saúde Insider. Acesse o texto original clicando aqui.