Discurso de Posse como Membro Titular
Excelentíssimo Senhor Presidente da Academia de Medicina de São Paulo, membros da mesa diretora, ilustres acadêmicos, familiares, amigos, senhoras e senhores.
É com profunda emoção, alegria e um imenso sentimento de gratidão que recebo a honra de integrar esta prestigiosa Academia de Medicina de São Paulo.
Agradeço sinceramente a todos os acadêmicos que confiaram em meu nome e me concederam o privilégio de fazer parte desta instituição centenária, tão importante para a história da medicina paulista e brasileira.
Assumo hoje a Cadeira nº 67 com a consciência da responsabilidade que ela representa e com o compromisso de honrar seu passado, contribuir para seu presente e colaborar para a construção de seu futuro.
Essa responsabilidade se torna ainda maior quando recordamos a trajetória dos ilustres médicos que fizeram parte de sua história: seu patrono, professor Afonso Régulo de Oliveira Fausto, e meu querido mestre e antecessor, professor Akira Ishida.
O patrono da Cadeira nº 67 — Professor Afonso Régulo de Oliveira Fausto
O professor Afonso Régulo de Oliveira Fausto nasceu em 1866 e desenvolveu uma trajetória marcada pela dedicação à cirurgia, ao ensino médico e à construção das instituições científicas de nosso país.
Formado em Medicina no Rio de Janeiro, destacou-se desde cedo por sua produção científica, incluindo sua tese intitulada “Da Evolução Ontogênica do Embrião Humano em suas Relações com a Filogênese”.
Esse trabalho, bastante avançado para sua época, seria reconhecido posteriormente por historiadores da ciência como uma das contribuições pioneiras da literatura brasileira sobre o tema.
Após um período de aperfeiçoamento no exterior, estabeleceu-se em São Paulo, onde passou a atuar na Santa Casa de Misericórdia, participando ativamente do desenvolvimento da cirurgia e do ensino médico paulista.
Em 1899, foi contratado como professor da Santa Casa, acompanhando um período de importantes transformações na estrutura hospitalar e nas práticas cirúrgicas.
Em artigo publicado em 1902, registrou a inauguração de três novas salas operatórias do Hospital de Misericórdia, um marco da modernização da assistência cirúrgica em nossa cidade.
Em 1913, passou também a integrar o corpo docente da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, contribuindo para a formação das novas gerações de médicos.
Sua atuação, entretanto, não se limitou à assistência e ao ensino.
Participou ativamente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, instituição que deu origem à atual Academia de Medicina de São Paulo, exercendo sua presidência em duas oportunidades, nos anos de 1905 e 1916.
Sua trajetória representa três pilares fundamentais da medicina: o exercício profissional, a transmissão do conhecimento e o compromisso com o fortalecimento das instituições científicas.
São valores que permanecem atuais e que inspiram todos aqueles que têm o privilégio de integrar esta Academia.
Professor Akira Ishida — Mestre, líder e referência na ortopedia brasileira
Ao recordar a história desta cadeira, chego agora a alguém que ocupa um lugar muito especial em minha trajetória profissional e pessoal: o professor Akira Ishida.
Graduado pela Escola Paulista de Medicina em 1976, o professor Akira construiu uma carreira acadêmica exemplar, inteiramente ligada à instituição, hoje Universidade Federal de São Paulo, onde alcançou o título de professor titular.
Foi um dos grandes responsáveis pela consolidação da ortopedia pediátrica no Brasil, contribuindo decisivamente para seu desenvolvimento científico, assistencial e acadêmico.
Mais do que um professor, foi um verdadeiro formador de gerações.
Ao longo de sua carreira, orientou e inspirou inúmeros ortopedistas e pesquisadores, transmitindo não apenas conhecimentos técnicos, mas também valores fundamentais para o exercício da medicina.
Sua principal linha de pesquisa esteve relacionada à doença de Legg-Calvé-Perthes, área em que desenvolveu importantes estudos e estabeleceu intercâmbios científicos internacionais, especialmente com o Cincinnati Children’s Hospital, nos Estados Unidos.
Entre os reconhecimentos recebidos, merece destaque o prêmio concedido em 1997, durante um congresso realizado em Nápoles, na Itália, ao trabalho “Operative Treatment of Perthes’ Disease”, considerado o melhor trabalho apresentado naquele evento.
Esse reconhecimento internacional reflete a relevância de sua contribuição científica e a qualidade da ortopedia brasileira.
Em 7 de março de 2012, o professor Akira Ishida tomou posse como membro titular da Cadeira nº 67 desta Academia.
Sua atuação, entretanto, ultrapassou os limites da universidade.
Foi presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica no biênio 2001–2002, contribuindo de maneira decisiva para o fortalecimento e a valorização da especialidade em todo o país.
Na Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, exerceu importantes funções, incluindo os cargos de tesoureiro e presidente da Regional São Paulo.
Também teve participação expressiva na Associação Paulista de Medicina, onde atuou como diretor administrativo e vice-presidente.
Foi, ainda, um dos fundadores da Academia Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, ocupando a Cadeira nº 32.
Em todas essas instituições, deixou sua marca como um líder respeitado, agregador e profundamente comprometido com o desenvolvimento da medicina.
Mas aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo sabem que sua grandeza não se resumia aos títulos, cargos ou realizações científicas.
O professor Akira era, acima de tudo, uma pessoa querida, generosa e comprometida com seus colegas, alunos e discípulos.
Seu falecimento, em dezembro de 2025, representou uma grande perda para a ortopedia brasileira.
Entretanto, seu legado permanece vivo.
Permanece nos profissionais que formou, nos conhecimentos que produziu, nas instituições que ajudou a fortalecer e, sobretudo, nos valores que transmitiu.
O professor Akira não deixou apenas uma obra científica. Deixou uma escola, discípulos e um exemplo de vida.
Ocupar hoje a cadeira que lhe pertenceu é, para mim, motivo de imenso orgulho, mas também de profunda responsabilidade.
Espero poder honrar sua memória e dar continuidade, dentro das minhas possibilidades, ao compromisso com a medicina, o ensino e a vida associativa que tão bem representou.
Agradecimentos aos meus mestres
Neste momento tão especial, não poderia deixar de expressar minha gratidão à Escola Paulista de Medicina, instituição que teve papel fundamental em minha formação e em toda a minha trajetória profissional.
Ao recordar os professores que fizeram parte dessa caminhada, reconheço o quanto cada um contribuiu para a construção do médico e do professor que me tornei.
Gostaria de prestar uma homenagem especial ao professor Laredo, que me recebeu no Departamento de Ortopedia e Traumatologia, quando retornei ao Brasil na década de 1980, e que teve participação fundamental no início de minha formação.
Ao professor Flávio Faloppa, orientador de minha tese de doutorado, agradeço pelos ensinamentos, pela confiança e pela contribuição decisiva para meu desenvolvimento acadêmico.
E ao professor Walter Albertoni, meu mentor, expresso uma gratidão que vai muito além da vida universitária.
Sua influência esteve presente não apenas em minha formação acadêmica e profissional, mas também em minha trajetória pessoal.
Foi alguém que sempre me incentivou, abriu caminhos e acreditou em minhas possibilidades.
A ele, que também teve papel fundamental em minha indicação para esta Academia, deixo meu reconhecimento, minha admiração e meu mais sincero agradecimento.
À minha família, meu porto seguro
Venho de uma família numerosa, com sete irmãos, na qual aprendi, desde muito cedo, o valor da convivência, do respeito e da tolerância.
Ao olhar para esta fotografia antiga, vejo meus pais, minha nona e meus irmãos. Vejo também uma infância e uma adolescência repletas de experiências que ajudaram a formar quem sou.
É curioso perceber que aqueles irmãos, hoje todos na casa dos sessenta anos, continuam compartilhando uma história que começou há tanto tempo.
Crescer em uma família tão grande nos ensinou a conviver com as diferença e a compreender o verdadeiro significado da tolerância.
São ensinamentos que carrego comigo até hoje e que, sem dúvida, influenciaram minha maneira de viver, de ensinar e de exercer a medicina.
Nesta foto minha esposa Rosely , a quem conheci quando tinha apenas 15 anos de idade: Minhas duas filhas maravilhosas, das quais tenho um orgulho imenso.
Gabriela, médica, está aqui conosco, acompanhada de seu marido, Diego.
Mariana, que vive no Canadá com seu marido, César, também participa deste momento, acompanhando a cerimônia pela internet.
Se hoje recebo esta homenagem, sei que ela também pertence à minha família, porque nenhuma conquista tem o mesmo significado quando não podemos compartilhá-la com aqueles que amamos.
Encerramento
Ao concluir, quero renovar meu agradecimento à Academia de Medicina de São Paulo e a todos os seus membros pela generosidade com que me receberam.
Sei que passo a integrar uma instituição cuja história foi construída por médicos extraordinários, que dedicaram suas vidas ao conhecimento, ao ensino e ao cuidado com o próximo.
Recebo essa distinção com humildade, entusiasmo e um profundo senso de responsabilidade.
Espero contribuir ativamente para a vida acadêmica desta instituição, compartilhar experiências, aprender com meus novos colegas e colaborar para que sua história continue sendo escrita com a mesma excelência que marcou seu passado.
Ao professor Afonso Régulo de Oliveira Fausto, meu respeito por sua contribuição pioneira.
Ao professor Akira Ishida, minha admiração, gratidão e o compromisso de honrar seu legado.
Aos meus mestres, minha eterna gratidão.
À minha família, todo o meu amor.
E a esta Academia, meu sincero agradecimento pela honra de agora fazer parte de sua história.
Muito obrigado a todos!