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Um médico de família e o enigma do “Pai Nosso”

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Arary da Cruz Tiriba
O aluno ouviu o Mestre com atenção. Passava-lhe a impressão de que, pela longa experiência
clínica, o velho educador tinha resposta para tudo. Ainda assim, o discípulo quis testá-lo. E ousou
desafiar o Professor:
— Você chega ao diagnóstico pela análise da queixa, dos sintomas e dos sinais. Tudo parece
simples! Será sempre assim, para nós, quando chegarmos a bacharéis? Ou existem situações,
Mestre, de sinais e sintomas aparentes, contudo, indecifráveis?
O Mestre sorriu:
— Mistérios! Se existem entre o céu e a terra, certamente você os defrontará à beira do leito.
E prosseguiu:
— O médico de família adquire conhecimento, necessariamente, das peculiaridades pessoais de
cada membro da unidade doméstica e, por dever de ofício, testemunha episódios surpreendentes,
inesquecíveis, por vezes inexplicáveis! Eu era moço, como você, quando assistia uma família
paulistana de quatro membros: pai, brasileiro, de origem centro-europeia, artífice de joalheria; mãe,
dona de casa, potiguar, há anos radicada na pauliceia. Casal de filhos: a jovem, 17 anos; o caçula, 12
anos.
Bom observador, o Mestre passou a descrever perfis, de uns e outros.
— O genitor, sonâmbulo a episódios alternados — de hilariantes a altamente perigosos! Por
exemplo, arrancar sua mulher da cama, segurá-la pelos cabelos, rodopiá-la, rodopiá-la, até recolocála
no leito... ou caminhar, à noite, na sacada sem parapeito da hospedaria, sob risco de despencar
das alturas. Era possuidor de alguns conhecimentos esotéricos, “por ouvir falar”, transmitidos da
parentela. A mãe, dedicada ao lar, personalidade inflexível, agnóstica! A moça, voluntariosa. Notória
incompatibilidade entre mãe e filha.
Pausou para, então, passar à descrição do caso clínico:
— Fiel da casa, o menino! Caráter meigo, afável, cativante. Antes dos dez de idade, fizera a
primeira comunhão. Despertou a atenção pela palidez, inapetência e febre. Esclarecimento,
agravamento e evolução — que levaram apenas uns 30 dias — foram rápidos. Diagnóstico:
leucemia! À madrugada, entrou em coma profundo! Na expectativa do final, silêncio sepulcral! À
roda, quatro pessoas: os pais, uma tia, o professor que lhe faz a narrativa. Respiração se
enfraquecendo a intervalos mais e mais dilatados. Do pequeno moribundo, inconsciente, começou
a récita... “Pai nosso... que estais no céu... santificado seja... o vosso nome... venha a nós...” Audível, palavra
por palavra, profundo, pausado, solene, meditado... inteira serenidade! Ao “Amém”, prece
concluída...
— Morreu o garoto!...
— Sim, a passagem da vida. Do presente para o pretérito. Mas perdurou para sempre aquele “Pai
Nosso”! Marcante, indelével! Discurso do menino em coma?! Impossível. Durante a doença,
nenhuma assistência espiritual. No seu entorno, apenas este seu Mestre... Em meu passado, estive
voltado à fé católica, contudo religiosidade já não exercitada, substituída que fora pelo exercício
pleno da clínica. Da clínica, como sacerdócio... Mas surpreendente, insisto, a oração proferida pela
criança em estado de coma fora impecável!
— Se você ficou tão impressionado, Mestre, sua interpretação foi a de um fenômeno?
— De certa forma, sim, se é para se satisfazer o inexplicável, porque, ao que assisti, o que ouvi,
não sucede com habitualidade. Acrescento que, em volta do leito, estávamos profundamente
concentrados no episódio dramático. Formávamos a corrente. De energia? Que acha? Dos
presentes, à exceção do pequeno paciente, o único que, em algum momento, exercera religiosidade
fora eu, repito, mas estou convencido de que não mentalizei a oração do menor.
— Mestre, você tinha o diagnóstico, leucemia, mas percebo que este não ficou completo. Acho
que sou capaz de adivinhar. Posso arriscar? Você teria testemunhado a transfiguração, sim, a oralidade
da alma... Ou a do menino, ou a do ser espiritual que se dispunha a despojá-lo da estrutura
somática... para direcioná-lo a outro caminho? O da paz do Senhor?
— É possível que esteja certo, meu caro. O “Pai Nosso” é a manifestação da fé. Sua reza pode
ser — sem depreciação — automática, trivial, porém, no caso, reafirmo, jamais voltarei a ouvir
aquele “Pai Nosso” grandioso e virtuoso! Pleno de sentimento! Perfeito! Como proposto pelo seu
autor.
Nota do autor: quando a narração foi repetida a uma mulher simples, de escolaridade mínima, sua
interpretação veio curta e pronta: “Ora, o Anjo da Guarda do menino!”.
Arary da Cruz Tiriba
Médico, Professor Titular da UNIFESP/EPM
e membro da Diretoria da Academia
de Medicina de São Paulo






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