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Recursos eletrônicos no futebol

22.10.2014 | Gerais

Antonio Carlos Gomes da Silva  

Vimos, nesta Copa do Mundo realizada no Brasil, a importância do recurso eletrônico na definição de um gol. Segundo informaram, quando a bola cruzar a linha, haverá o concomitante aviso sonoro ao árbitro. Este recurso é válido e muito bem-vindo, pois uma das características do jogo de futebol é a decisão imediata do árbitro, mas requer parafernália eletrônica só factível em um evento dessas proporções. Valeria a pena o dispêndio de uma enorme quantia para equipar centenas de estádios mundo a fora a fim de dirimir a dúvida se a bola entrou ou não, uma vez em centenas de jogos

Nesta Copa de 2014, em 64 jogos, só em uma partida a eletrônica poderia ter sido útil: no jogo França 3 x Honduras 0. Poderia porque, aparentemente, o árbitro já teria assinalado o gol, dispensando o recurso eletrônico. Nos campeonatos disputados no Brasil, além dos dois bandeirinhas e do árbitro substituto, participam mais dois auxiliares do árbitro, postados ao lado de cada uma das metas para confirmar um gol duvidoso, caso a bola ultrapasse totalmente a linha do gol, e auxiliar o árbitro ao interpretar infrações às regras do jogo. Portanto, uma função interpretativa de que a eletrônica não dispõe. 

O futebol é um jogo dinâmico que não admite delongas, muito diferente do basquetebol, em que o recurso eletrônico não é usado, mas tem regras que interrompem o jogo, tais como: 1 — saída da bola do campo de jogo, que só retorna após passar pelas mãos dos árbitros; 2 — pedidos de tempo; do tênis, que é segmentado; e do futebol americano, muito truncado, prolongando uma partida por horas. O espectador sai do seu lugar inúmeras vezes para se alimentar, para suas necessidades fisiológicas ou outras. 

Talvez fosse útil na marcação de impedimentos, desde que se dispusesse de câmaras de televisão que acompanhassem a linha de ataque, isto é, na linha do mais avançado atacante. Seria possível? Assim, dispensaríamos, em princípio, os bandeirinhas, mas nos lances interpretativos, como mão na bola ou bola na mão ou nos choques entre jogadores adversários, o árbitro ficaria órfão de seus auxiliares? 

Poderiam ser evitadas injustiças, como as ocorridas no jogo Nigéria 1 x Bósnia 0, partida em que, sem os erros de arbitragem (anulação de um gol legítimo da Bósnia por impedimento inexistente e validação do gol de Nigéria após falta do atacante), talvez o placar fosse invertido, com vitória da Bósnia. São erros próprios da natureza humana, embora raros por prejudicarem a mesma equipe em dois lances capitais. 

Não vejo, por ora, como poderia ser útil, quer num impedimento, quer numa interpretação de uma falta ou de um pênalti, já que esses lances exigiriam consultas aos recursos eletrônicos, retardando este dinâmico jogo. Com frequência, constatamos comentaristas confortavelmente instalados, depois de serenadas as emoções e tendo à disposição inúmeras repetições do mesmo lance, discordarem. Imaginem isso no calor da disputa e com interferência no andamento da partida.  

Tenho ainda a convicção de que estas situações controversas ajudam a manter — ou até mesmo a aumentar — a popularidade do futebol, pois alimentam as paixões que o fazem tão difundido pelo mundo, realimentado pelas discussões nos estúdios de televisão, nos lares e nos bares. Assim como na sociedade, na qual só os fatos polêmicos a mobilizam, no futebol as situações dúbias são as que o tornam cada vez mais popular. 

Em resumo, todo recurso que possa informar imediatamente ao árbitro qualquer irregularidade, sem retardar o jogo, só pode ser bem-vindo, pois o dinamismo da disputa é o fundamento do futebol. Assim, diminuiriam as injustiças, escopo de uma sociedade esclarecida e ética, mas, possivelmente, refreariam-se as paixões que mantêm o futebol popular. 

Antonio Carlos Gomes da Silva 

Membro da Academia de Medicina de São Paulo