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Tertúlia de abril discute puberdade precoce nas últimas décadas

08.04.2026 | Acadêmicos, Tertúlias

Na última quarta-feira, 8 de abril, a Academia de Medicina de São Paulo (AMSP) promoveu mais uma edição da sua tradicional tertúlia – de forma híbrida, com transmissão a partir da sede da Associação Paulista de Medicina. Nesta edição, o convidado foi o conselheiro Científico da AMSP, Osmar Monte, que abordou o tema “Por que a puberdade vem se antecipando nas últimas décadas?”.

Hélio Begliomini, presidente da AMSP, deu início à sessão fazendo uma breve apresentação do acadêmico. Paulistano, Osmar graduou-se na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde também fez residência em Clínica Médica e se especializou em Endocrinologia.

Na Santa Casa ocupou cargos importantes, como chefe do Departamento de Ciências Fisiológicas (1995-2008); vice-diretor do curso de Medicina (2008-2011); vice-reitor (2011-2014 e 2014-2017); professor do curso de pós-graduação stictu sensu (1996-2015), período em que orientou muitas teses de mestrado e doutorado; e professor emérito (2018).

Osmar Monte também atuou como vice-presidente (2005-2006) e presidente (2007-2008) da Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Paralelamente à sua carreira acadêmica, ingressou, em 1975, mediante concurso, como 1o tenente médico, no quadro de oficiais da Saúde da Polícia Militar do Estado de São Paulo, passando para o quadro da reserva, no posto de coronel médico, em 1997.

O acadêmico iniciou sua apresentação explicando o conceito geral de puberdade: o período de transição entre a infância e a vida adulta, no qual se adquire a capacidade de reprodução. Ele destacou o caso da mãe mais jovem relatada na literatura médica, que teve sua menarca aos 3 anos de idade, engravidou aos 4 anos e 10 meses e teve o parto aos 5 anos e 7 meses. “O avanço da puberdade pode predispor a determinados distúrbios de adaptação, tanto psicossocial à criança, quanto risco de abuso. E risco não é algo raro de acontecer, é algo corriqueiro que a gente presencia nos ambulatórios.”

Sobre as idades, destacou que, nos meninos, o primeiro sinal de puberdade é o aumento do volume testicular, que muitas vezes passa despercebido porque essas crianças não são devidamente examinadas nas consultas pediátricas. No geral, a maioria dos meninos entra na puberdade entre 11 e 13 anos, sendo considerado normal o intervalo de 9 a 14 anos. Abaixo de 9 anos é considerado precoce; acima de 14, puberdade tardia. Já nas meninas, a maioria entra na puberdade entre 10 e 12 anos, sendo o normal de 8 a 13 anos. Abaixo de 8 anos é considerado precoce e, acima de 13, tardia.

O médico explicou que o início da puberdade é marcado pelo aumento da secreção do hormônio GnRH: “Eu posso aumentar essa secreção de um modo agora patológico, não fisiológico, como uma mutação ativadora da kisspeptina, que desencadeia a puberdade precoce, ou uma mutação ativadora do seu receptor, ou ainda a mutação inibitória de uma via inibidora, que deixa a kisspeptina livre e desencadeia a puberdade nesses dois ritmos”.

O especialista ressaltou que existem outros sistemas excitatórios, como a leptina (produzida pelo tecido gorduroso), que é um dos fatores fundamentais para desencadear a secreção de GnRH. Por outro lado, fatores inibitórios como a grelina (hormônio da fome produzido no estômago) podem bloquear o processo. Isso explica por que, na anorexia nervosa, a redução da gordura corporal e da leptina leva à amenorreia. “Quando a gente tem pessoas mais magras, a idade da menarca é mais tardia do que em pessoas com mais peso; ou seja, para iniciar a puberdade, é preciso ter uma certa massa corporal em gordura”, completou.

Osmar Monte concluiu dizendo que, nos últimos anos, a menarca tem apresentado uma tendência de ocorrer cada vez mais cedo. Entre as causas estão a obesidade infantil e a exposição a desreguladores endócrinos presentes em alimentos ultraprocessados, que podem ocupar os receptores de estrógeno.

“A idade da menarca vem diminuindo ao longo dos últimos 50 anos. As meninas estão menstruando mais cedo, a regularidade menstrual em dois anos está diminuindo, e muitas vão precisar de tratamento hormonal para regular essa puberdade”. Além da obesidade, o aumento da exposição às telas e o sedentarismo — agravados na pandemia de Covid-19 — também antecipam o processo. “A puberdade mais precoce pode aumentar o risco de câncer, principalmente ginecológico, risco de aborto espontâneo, doenças cardiovasculares e fraturas.”

Texto e fotos: Maria Lima (sob supervisão de Giovanna Rodrigues) – Comunicação – Associação Paulista de Medicina.