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Um convite inesperado, por Acad. Helio Begliomini

15.02.2013 | Tertúlias

Às dez e quarenta e cinco da noite de uma sexta-feira, tocou o telefone. Paulo, que não esperava ninguém, percebeu de pronto que era a voz aveludada de Renato, seu filho mais velho.
Após cumprimentos e troca de amenidades, Renato convidou-o para um jantar. Seria especial, pois estava às vésperas de seu casamento com Cyntia. Participariam apenas sua mãe, Maria Lúcia; sua irmã, Roberta; e os pais de sua noiva. A data seria dentro de uma semana, na próxima sexta-feira, na casa onde Paulo havia vivido dezoito felizes e inesquecíveis anos junto de sua esposa e filhos.
Colocado o telefone no gancho, Paulo ainda estava surpreso com aquele convite inesperado. Embora tivesse relações amistosas com Maria Lúcia, jamais esperaria por aquela “convocação”.
Ainda reverberava em sua mente o desejo do Renato em reunir seus entes mais queridos e, como que em estado de transe, seu pensamento rapidamente alçou voo a um feliz passado, interrompido havia oito anos.
Paulo e Maria Lúcia haviam namorado apenas uma vez antes de se conhecerem, em pleno desabrochar da juventude e durante a vida universitária. Ele, estudante de Administração, e ela, de Engenharia. Namoraram durante cinco anos e, logo após a formatura dele, casaram-se. Tinham vivido momentos maravilhosos, que o tempo não poderia apagar.
Naquela noite, Paulo não conseguiu dormir, pois as recordações que pululavam em sua mente tornavam-se agradáveis iguarias no seu presente insosso.
A semana passou célere e Paulo logo se viu tocando a campainha da casa onde vivera. Os poucos convivas encontravam-se “aperitivando” na sala. Entreolhavam-se e conversavam amenamente. Paulo recebeu calorosos elogios dos pais da Cyntia pelo educado homem que Renato se tornara, um verdadeiro filho para eles, visto que tiveram uma única descendente.
Por sua vez, Paulo percebia o quanto Renato e Cyntia se amavam, pela maneira carinhosa como se tratavam. Assemelhavam-se a ele e à Maria Lúcia de outrora.
Num ambiente acolhedor, adornado com uma agradável seleção de música popular brasileira, transferiram-se para a sala de jantar.
Quis o destino que Paulo se sentasse bem em frente a Maria Lúcia. Entre troca de gentilezas e olhares tangenciados, ele via naquela mulher de 46 anos, agora com cabelos mais curtos, presos ao nível da nuca, levemente tingidos, e face com rugas incipientes disfarçadas pelos cremes e blushes, a linda menina-moça que namorara outrora.
Entre uma música e outra que se sucediam, começou a tocar “Todo o Sentimento”, interpretada por Chico Buarque.
Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.
O tempo realmente parecia ter voltado ao passado. Tudo fora desmoronado como um grande castelo de areia. A perda do Matheus — seu filho mais novo que contava com apenas cinco anos — em apenas três dias, por uma meningite meningocócica fulminante, levara-os a uma grande depressão, afastando-os de familiares, amigos e de si mesmos.
Aquela amputação tinha anulado a afetividade que neles sempre superabundara.
Paulo bem se lembrava… cerca de oito meses após a inconsolável perda do Matheus… seus amigos, querendo rea­nimá-lo, convenceram-no a realizar com eles uma viagem ao Nordeste. Numa das noites, desinibido pela bebida em excesso e num estado de “sem querer querendo”, tentara testar e reativar sua masculinidade, cedendo seu corpo — o corpo de Maria Lúcia — aos caprichos de mulheres fortuitas da noite. Entretanto, no dia seguinte, amargurara não apenas os dissabores da ressaca, mas uma nova melancolia — a da traição.
Havia entre Paulo e Maria Lúcia um pacto inquebrantável de namoro: se ao longo da vida a dois houvesse uma traição, o outro seria o primeiro a tomar conhecimento. Entretanto, não precisou de muito para que sua esposa pressentisse o infausto.
Ao fundo, a música acentuava…
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez.
O jantar seguia animado pelo vinho tinto chileno de selecionada casta carménère, especialmente escolhida pelo seu filho.
Maria Lúcia, por sua vez, também entreolhava disfarçadamente seu ex-amado. Parecia que seus pensamentos confluíam no mesmo sentido que os de Paulo.
Ela via naquele homem de 48 anos à sua frente, com cabelos levemente grisalhos e penteados para trás, barba benfeita, trajando um blazer azul-marinho sobre uma camisa branca, de atitudes educadas e desarmadas, o grande amor de sua vida, com quem planejara construir uma família feliz. E as inúmeras juras de amor que haviam trocado estavam sintetizadas na música que prosseguia:
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente…
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.
O dissabor de seu desenlace com Paulo, igualmente reverberava em sua mente, agora, com um contraponto, uma candente interrogação: talvez, se tivesse visto com outros olhos os agravantes da traição, teria relevado aquela atitude e atenuado os amargos momentos que solitariamente passara, sobretudo por ter Paulo lhe pedido insistentemente perdão e ter-lhe confessado profundo arrependimento.
Entretanto, a fragilidade daquele momento lhe cegara a razão. Sua péssima autoestima agigantara-lhe um doentio orgulho ferido.
Ambos sabiam que, embora tivessem tido vários relacionamentos ao longo de oito anos de separação — tentando cada qual preencher um vazio impreenchível —, nenhum deles se aproximara do amor pueril, do grau de intimidade e do comprometimento que tinham alimentado ao longo dos benfazejos anos de namoro e casamento.
Após tantos olhares voluntariamente dispersos, Chico Buarque colocou-os frente a frente, exatamente quando concluía sua canção:
Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.
Aquela tinha sido uma noite muito especial. Um convite inesperado, em todos os sentidos!